segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Blame it on the Alcohol

São dois quintos da minha vida e o pulsar da noite faz-se sentir na minha pele, irrigada por este luar de prata que me recorda, ligeiramente, de uma presença também ligeira de alguém que, um dia talvez, tenha habitado o meu coração. E sinto-me acolhido nos braços das estrelas que salpicam o negro do céu que nada dá a quem nada tem, esse céu egoísta que até das lágrimas nos priva.

São horas que passam e que eu não sinto passar, enquanto as fracções da minha vida se encurtam, tão lentamente quanto o tempo, e eu envelheço perdido em memórias. Ó passado tão tentador, se fosses presente haveria futuro dito promissor, mas não: és passado maldito que atormentas quem tudo teve e sofre por já não ter. E ris-te, porque és filho do tempo que te pariu, passado odiado!

São loucuras temporariamente permanentes que me assaltam e levam de mim a sanidade que explodiu em mil partículas com a partida do vento que varria o meu deserto. Já não há amenizador que acuda um pobre mendigo abandonado à crueldade da vida a suportar a solidão que se alimenta de sombras e saudades. E sinto-me tão inócuo que seria capaz de levitar e me juntar a ti, onde quer que estejas, não fossem estas trevas que me acorrentam ao solo.

São quatro sétimos da minha vida e ainda sinto a magia do veneno que circula dentro de mim. Que se deitem as culpas ao álcool que habita nas minhas veias e que o incendeiem junto comigo quando ele deixar de correr, pois sóbrio não quero ser existência. As cinzas que restarem daquilo que eu um dia fui, que se espalhem por sóis amenos e que se faça luz e calor, para que aqueles que nunca tiveram o que eu nunca tive, o possam ter. Que eu seja um catalisador de felicidade, nunca tendo sido feliz.

São nove nonos da minha vida e é tempo de eu partir de mim.

domingo, 2 de outubro de 2011

Campo de Batalha


Perdemos. Admitamos a derrota como adultos que nunca fomos. Púnhamos sorrisos de enfeite nos nossos rostos enquanto acenamos ao mesmo tempo a bandeira branca da rendição.  Fomos guerreiros suicidas nesta batalha inglória. Resta-nos regressar às nossas casas, separados, curar as feridas que em nós ficaram marcadas e que, com certeza, serão as cicatrizes de guerra que mais amaremos.

Será luz que eu vejo ao retornar? Pensei estar tão errado na nossa rendição. Afinal, desistir da batalha que enfrentávamos era sinónimo de desistir de ti. E no entanto, também a tua mão se juntou à minha, erguendo o mastro que sustentava o pano com a cor da paz. Mas estaremos nós nesse estado inatingível? Reformulo: estaremos nós em paz, estando os nossos corações separados?

Queria perder as memórias que ganhei no campo de batalha. Queria perdê-las como este riacho que corre junto aos meus pés perde a lembrança das pedras que beija na sua passagem. No entanto, sou tão teimoso quanto as pedras deste riacho: ambos mantemos as memórias dessa passagem. Afinal, como podia eu abandonar tais memórias? Nem o mais vil e cobarde dos seres esquece o amor…

Cada palavra sussurrada ao meu ouvido. Sabes a que me soava? Soava-me a um coro composto por fadas, entoando um canto mágico, que me deixava completamente hipnotizado, extasiando-me ao ponto de desejar que tais palavras nunca cessassem. E ainda assim, tal era sensação era ultrapassada quando comparada com as memórias das trocas de calor dos nossos corpos.

Mas já nada disto me pertence. Fui feliz contigo, mesmo nunca te tendo realmente, pois as bombas que mergulhavam do céu e as minas que se escondiam no solo mantinham-nos apartados. Contudo, sempre fomos duas fracções opostas que lutavam por um objectivo comum: o nosso amor. No final, o relatório desta guerra tinha, carimbado a vermelho, em letras bem grandes, “missão falhada”…